">
*
 
 

“Fazer uma gota d’água falar em tupi-guarani.” Não era nada menor que isso o desafio assumido por Adriana Vignoli, segundo ela própria, em “Vãos”, obra que a artista brasiliense vem desenvolvendo e aperfeiçoando há um par de anos.

Ao mesmo tempo em que é milimetricamente conceitual, o trabalho de Adriana aqui também se apresenta como milimetricamente prático. Uma estrutura delgada de ferro sustenta nas pontas duas casas de marimbondo (sem marimbondos dentro!). Um palmo abaixo delas, duas caixas de som são posicionadas também frente a frente. Pendendo do teto e completando a instalação, um reservatório de água feito de vidro fica a gotejar lenta mas constantemente.

Cada gotinha d’água a cair no espaço (vão) entre as casas de maribondo é detectada por um raio laser que, por sua vez, dispara uma gravação. Um som gutural que pode ser representado graficamente como /Y/ na fonética tupi-guarani. No gotejar, cria-se um repetitivo e ritmado diálogo de /Y/ em /Y/.

/Y/ quer dizer “água”.

Sem equivalente na língua do colonizador europeu, conta Adriana Vignoli, esse /Y/ foi sendo esquecido pelos próprios índios, de geração em geração, até ser praticamente perdido. Tanto que apenas um professor paranaense de linguística, especializado em tupi-guarani, pôde emprestar a correta pronúncia do /Y/ que se ouve em “Vãos”.

“Vãos” já foi apresentada por duas vezes aqui na cidade. Dentro da seleção de finalistas do Prêmio Transborda Brasília, em julho do ano passado na Caixa Cultural, e depois, em outubro, numa individual de Adriana Vignoli no Elefante Centro Cultural.

Desde a noite da última quarta-feira (17/5) na Funarte de Belo Horizonte, Minas Gerais, “Vãos” faz parte da mostra coletiva “Encontros no Espaço”. Sob o olhar da curadora brasiliense Graça Ramos, ali estão reunidas também obras da mineira Lais Myrrha e do paraense Francisco Klinger Carvalho. (Em cartaz até 26 de junho, a mostra não tem previsão de chegar a Brasília.)

Antes de encaixotar suas peças e seguir para Minas, Adriana Vignoli recebeu a coluna “Plástica” em seu ateliê na W3 Sul, na sobreloja do Bar do Amigão. A ideia era conversar sobre seu processo criativo e sobre a prática diária do que ela chama de “embate com a obra”…

Formada em arquitetura e pós-graduada em artes visuais pela Universidade de Brasília (UnB), Adriana Vignoli vem conciliando esse duplo interesse, essa dupla percepção.

Com a arquitetura, aprendeu a lidar com o tempo e com o movimento, temas fundamentais para cada uma de suas peças. Quando migrou para as artes visuais, levou com ela a minúcia de um projeto e a perseguição ao cálculo exato. Se a arte contemporânea muitas vezes admite o erro, e tantas vezes até corteja o ruído, Adriana é implacável na busca do acerto.

Daí o tal embate com a obra. “Vãos”, por exemplo, nasceu bem lá atrás, num olhar de Adriana sobre as casinhas de joão-de-barro. Exemplo de uma arquitetura arcaica em que a forma segue a função, ela acredita. No caminho que a levou a “Vãos”, as caixas de marimbondo cumprem esse papel que antes tinha sido percebido nos passarinhos. O papel de representar uma ancestralidade numa obra de inspiração indígena em que Adriana traz também um componente tecnológico da civilização urbana – o raio laser a disparar nas caixas de som.

Na primeira versão da obra, Adriana tinha desenhado como uma escultura de parede. Logo percebeu que era preciso ganhar o espaço. E o desafio passou a ser o conta-gotas que se revelava impossível de garantir um pingar constante, volta e meia entupindo ou deixando escoar tudo rápido demais. Quando apresentou a peça pela primeira vez, no Transborda Brasília, concluiu na prática que ainda não estava perfeita.

Depois dali, trocou o conta-gotas por uma torneirinha. O reservatório de água, que antes era vertical, agora está deitado na horizontal para diminuir a pressão do líquido que dali goteja. Aliás, a própria água foi substituída por uma águia ionizada, líquido mais fluído. E, por tabela, essa mudança na química da água acarretou a necessidade de reajustar a sensibilidade do antigo laser: de tão transparente, a água ionizada já não era mais detectada pelo laser.


“Uma obra nunca está pronta”, elabora Adriana Vignoli. “Nunca está perfeita, no sentido de estar terminada. Sempre pode ser aperfeiçoada. E o erro não faz parte do meu trabalho, não pode fazer, perderia o sentido. Daí esse embate.”

A outra peça de Adriana na exposição da Funarte de Belo Horizonte, traz mais um episódio do embate poético da artista com seus materiais. A inédita “Onde a Terra Acaba” foi pensada como continuação do tema de sua instalação “Paisagem Feita com Grãos de Pedras” (2015). Tanto uma obra quanto a outra se movimenta lentamente, quase espontaneamente, na dinâmica do montinho de terra que vai se erodindo.

“Queria uma peça que estivesse ao mesmo tempo em queda e em suspensão”, explica Adriana Vignoli, com a mesma singeleza de quem pôs uma gota d’água para falar tupi-guarani.

Desta feita, ela construiu duas peças de cerâmica. Uma fica pendendo do teto. A outra é colocada diretamente no chão. As duas peças são ocas, mas a de cima fica preenchida com terra vermelha. Essa terra vai se desmanchando, escorrendo até cair dentro da segunda peça — e dali se esparramar pelo piso da galeria.

Adriana primeiramente tinha pensado nessas duas cabaças como objetos de vidro, semelhantes aos que já tinha usado em outros momentos, como na própria “Paisagem Feita com Grãos de Terra”. Porém, para ela, não faria sentido usar vidro ali. Faria muito mais sentido, isso sim, usar cerâmica. Que cerâmica é barro. Que barro é terra. Assim como a terra que dali escapa.

adriana vignoli
 


COMENTE

Ler mais do blog