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Eu tinha uns 16 anos quando ouvi, pela primeira vez, o relato de uma menina que havia provocado um aborto. Era minha colega de escola, talvez um pouco mais velha que eu, morava com o namorado e, em um descuido, engravidou. Lembro de lhe fazer mil perguntas e de, no meu íntimo, não entender por que ela interrompeu a gestação.

Sob o prisma da minha criação católica, arrematado pela influência das princesas da Disney, ela já vivia o conto de fadas, com príncipe e tudo, como assim não queria ser mãe? Não fazia sentido. Ainda bem que o tempo passa, a gente aprende, reflete, conhece outras histórias. Hoje, defendo que as mulheres decidam se querem ou não seguir com uma gravidez. Na verdade, depois de ser mãe, me tornei ainda mais favorável a descriminalização do aborto.

É por isso que comemorei a decisão do Supremo Tribunal Federal desta semana, na qual os ministros consideraram não ser crime a realização do aborto até a 12° semana de gestação. A decisão se refere a um caso específico (profissionais donos de uma clínica presos preventivamente), mas abre um precedente importante para o debate sobre o tema no país.

Não vou gastar este espaço falando sobre a necessidade de tratar o aborto como uma questão de saúde pública, ou sobre como a criminalização pune, principalmente, as mulheres pobres, ou sobre o fato de que os índices de aborto caíram em todos os países onde a prática foi legalizada.

Aqui, falo como mãe: a maternidade é algo que exige tanto da gente que torná-la compulsória é uma violência."

É violência contra nós, mulheres, que carregamos o fardo social da gravidez e da criação dos filhos – fardo esse que levará muito tempo para ser igualmente dividido com os homens (se é que um dia será).

Se isso parece “dramático” demais, é só fazer um esforço para perceber o quanto nós, enquanto sociedade, cobramos das mães e o quão pouco fazemos o mesmo dos pais. Quantas vezes, ao ver uma criança fazendo “arte” na rua, não me peguei pensando: cadê a mãe desse menino, gente?! Isso que sou feminista e me esforço diariamente para quebrar meus próprios preconceitos.

Eu, na minha vidinha, dificilmente faria um aborto. Mesmo se tivesse engravidado na adolescência, de um ficante, sem nenhum compromisso. Mas essa sou eu. Acho tremendamente injusto impor a todas as outras mulheres uma avaliação baseada somente na minha perspectiva.

Nenhuma mulher deveria ser obrigada a ser mãe, nenhuma criança deveria vir a mundo sem ter sido desejada (ainda que não planejada). Que essa decisão do Supremo sirva para que voltemos a falar desse assunto, tão temido quanto necessário.

abortofeminismo
 




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