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Quem tem filho pequeno sabe que, na hora de levar a criança para a creche, bate aquela ansiedade: será que ele vai ficar bem? Quem são as pessoas que cuidarão dele? Será que serão amorosas e respeitosas?

A arquiteta Júlia*, 36 anos, teve uma experiência ruim em relação a isso. Seu filho de 5 anos, que vai para um jardim de infância da rede pública do DF, começou a relatar que a professora gritava em sala de aula. Depois, Júlia percebeu que as crianças eram punidas caso pedissem para ir ao banheiro “fora de hora”. O castigo era ficar sem ir ao parquinho.

A gota d’água foi quando, ao observar uma atividade de colagem feita pelas crianças, a arquiteta ouviu a professora repreendendo o garoto por estar fazendo tudo “do jeito errado”. “Ela percebeu a minha presença e me chamou: ‘vem aqui ver o que seu filho andou fazendo’. Como se houvesse um jeito certo para um menino de 5 anos fazer uma colagem!”, indigna-se Júlia. Houve uma reunião com a direção da escola e a professora foi advertida, mas a arquiteta achou melhor pedir que o menino trocasse de sala.

Situações como essas – em que crianças pequenas não são ouvidas em suas necessidades e têm a autoestima minada – acontecem também na rede privada. Na creche particular onde o filho de Júlia ficava antes de ir para o jardim de infância, por exemplo, as professoras insistiam que havia brincadeira e cor de menino e de menina. “Lá pelas tantas, meu filho não queria mais usar o lápis cor de rosa para desenhar. Isso não é compatível com a escola do século 21”, diz.

A jornalista Larissa Garcia, 28 anos, também se surpreendeu com o tom de uma profissional ao procurar uma creche particular para o filho de 3 anos e meio. “Quando contei que seria a primeira vez dele na escolinha, ela me respondeu dizendo temer que meu filho não conseguisse ‘acompanhar a turma’”, lembra Larissa. “O que eles estão ensinando para as crianças? Física quântica?”, acrescentou.

A professora Maria de Fátima Guerra de Sousa, do Departamento de Métodos e Técnicas da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), explica que, embora a pesquisa sobre educação infantil tenha avançado muito nos últimos anos, o conhecimento não chegou à imensa quantidade de pessoas que trabalham cuidando de crianças no Brasil.

“O equívoco mais comum é não entender a individualidade de cada um. É achar que, porque estão todos na mesma faixa etária, todos têm o mesmo desenvolvimento e, portanto, devem receber o mesmo tratamento”, detalha a especialista. Maria de Fátima afirma que o bom professor/educador é aquele que estimula o desenvolvimento e a aprendizagem da criança.

“Recebo muitas perguntas de pais sobre qual é a escola ideal. A eles, sempre digo: procure saber quem vai se relacionar com seu filho”, recomenda a professora da UnB. E um bom educador não necessariamente é o que tem o maior grau de instrução, assim como também não é primordial a infraestrutura da escola. “Não é a instituição que marca, é o professor. É ele que estará o tempo todo com a criança, que vai efetivamente contribuir para o desenvolvimento dela”, frisa.

*Nome fictício à pedido da entrevistada.

 


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