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O pavor de não ser amada me paralisa. Sabe quando você chega na roda e o assunto morre, você tem aquela sensação de existir no campo da tolerância alheia ou – pior – da indiferença? O medo de que se você morrer ninguém vai sentir sua falta no escritório? Eu temo desde as menores rejeições do dia a dia, como um chefe não gostar de uma sugestão que eu considerava genial ou uma demissão de verdade. Que as pessoas achem que eu me visto mal ao trabalhar, que sou emocionalmente desequilibrada, que não sei operar sob pressão. Tem momentos que me sinto feito uma garotinha sozinha andando com o coração numa bandeja e dizendo a todos:

— Você me amaria, por favor?

Esses dias, me consolou descobrir que eu não sou a única mulher adulta a se sentir assim – nem a se sentir assim no trabalho. Talvez console você também, caso faça parte deste time. Este fenômeno não só é estudado a sério como tem até nome: chama-se “corda apertada” e descreve situações em que uma mulher precisa escolher entre ser querida ou respeitada em seu trabalho.

E que decisão bosta de ser tomada! Será que não podemos ser amadas E respeitadas, pelo amor de Deus?! Mas não, tem vezes que não dá mesmo e parte disso é porque todos nós, homens e mulheres, nos sentimos obrigados a nos encaixar numa série de estereótipos. Por exemplo: um homem que tem posições firmes é decidido; uma mulher, histérica. Um homem que tem sensibilidade é risível e fraco; uma mulher, delicada e amável. E tudo isso nos impede de sermos, simplesmente, nós mesmos em todo nosso melhor potencial e impede também coisas únicas e especiais que trazemos nesse combo e que nem sempre se enquadram em caixinhas de gênero.

Mas o que eu acho que pesa mais nesses casos – pelo menos pra mim – é que a educação das meninas, hoje, é um treinamento intensivo pra aprovação. Não pro amor, porque eu acho ser educada pro amor uma coisa linda e que tá em falta. Mas nós, mulheres, somos educadas (e educamos nossas filhas, junto com os pais delas) para sermos admiradas, para jamais desagradar. Pra sermos a miss caipirinha da festa junina, a menina mais bonita da sala. A gente ensina pra elas que é bonito ter uma legião de adoradores que elas não querem e que há algo de errado com elas se os homens não estão implorando pra se meter entre suas pernas não importa onde seja.

Mulher é doce, acolhedora, mulher não desagrada, mulher entende. Que peso tudo isso, né? Ainda mais no trabalho, em que uma série de outras decisões muito importantes entram em conflito com essas características. Quando eu entrevisto políticos, por exemplo, serei uma péssima repórter se não souber ser dura e incisiva. Quando eu lidero uma equipe, não posso viver pra agradar porque exigir excelência ao limite faz parte do processo.

E aí que você não vai ser sempre amada mesmo e isso tem que parar de doer.

Eu acho, naturalmente, que nós, enquanto sociedade, temos que acolher mais as mulheres profissionais e parar de medi-las com réguas diferentes da dos homens. Mas eu, particularmente, cansei de esperar que a solução ao meu problema venha de fora de mim, por ora.

Enquanto reclamo meus direitos no mercado de trabalho, eu tenho lido muito sobre autocompaixão. Sim, essa coisa de ter compaixão por si mesma e por suas próprias limitações, a meu ver, é uma revolução feminista particular que todas temos que trilhar. E se amar o bastante pra não sofrer quando as pessoas não te amam.

Eu vou terminar este texto e ir ali meditar em silêncio, repetindo pra mim que tudo bem não ser querida o tempo todo – as melhores mulheres da história não foram. E isso não vai me paralisar a mudar o mundo ao meu redor, mas a mudança será acompanhada por uma transformação interior.

feminismoamor próprio
 


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