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Nos últimos meses eu andava brigando muito com algumas de minhas melhores amigas. Na verdade, a situação poderia ser melhor descrita como “estávamos todas, naquele grupo, querendo arrancar o pescoço umas das outras”. Curioso é que a nossa relação, historicamente, era acima da média de boa. A gente tinha uma habilidade rara de discordar com paz e atingir consensos.

Então sentei com duas delas esses dias para brigar até a vontade de brigar passar. E não é que passou? Mas passou não pela briga, naturalmente, mas pela escuta. Que duro foi ouvir, de uma delas, que eu não sabia escutar. Ouvia, mas não escutava. Procurava nas frases das pessoas os 20 ou 30% que me convinham e jogava o resto no lixo.

E retruquei, acredito que com justiça, que, em alguma medida, nenhuma de nós estava muito boa de escuta ultimamente. Veja que me explico: quando a amiga X falava, todas já ouviam, antes de qualquer palavra sair da boca dela, que vinha uma opinião negativa. Quando a amiga Y opinava, a gente já presumia que ela ia dizer algo ansioso (a amiga Y era eu!). Quando a amiga Z complementava, a gente já presumia que vinha algo duro.

Mas quer saber do quê? Nem sempre eu era ansiosa, nem a amiga X pessimista e nem a Z durona. E quando foi que a gente deixou de se ver como surpresas umas para as outras? Quando foi que o estereótipo que criamos sobre cada uma ficou mais importante do que quem ela era de verdade?

Andei refletindo muito sobre meu problema com minhas amigas e acho que ele é uma boa metáfora, em pequena escala, do que tem ocorrido nas redes sociais. Aqui no Metrópoles, por exemplo, tem leitor que vê a palavra “feminismo” na minha coluna e já presume que nada que vier daqui pode prestar.

Outro dia escrevi uma coluna sobre amor e tinha gente supostamente discordando de mim, mas dizia exatamente as mesmas coisas que eu defendia na coluna. Se a pessoa tivesse lido até o final, teria visto que não estava divergindo, mas, na verdade, reforçando meu ponto de vista."

A gente se tornou tão viciado em ganhar discussões que esqueceu que mais importante é crescer com elas. Discordar é bom! Discordar, me atrevo a dizer, é a única forma de crescer! Por que temos tanta medo da discrepância? Talvez porque tenhamos medo de crescer…

Fico aqui pensando que é mesmo trabalhoso mudar quem se é ou as opiniões que se têm. Comprar uma fórmula pronta de opiniões, um caderninho de preceitos em que as coisas entram em colunas de “certo” e “errado” torna mesmo mais fácil operar por todos os desafios morais que a vida nos apresenta.

A amiga X me disse, naquela mesma conversa, que “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Voilà! É isso mesmo: ter a liberdade de saber que você não está sempre certo e que pode mudar de ideia a qualquer momento exige uma vigilância exaustiva. Demanda escutar incansavelmente em busca de um eu melhor. Porque é necessário não ser escravo das próprias ideias para ser verdadeiramente livre.

Aquela briga com minhas amigas, na verdade, foi um dos gestos mais amorosos e transformadores que uma amizade pode ter. Eu queria agradecer a X e Z por terem me feito ouvir. E por terem entendido que elas também não estavam me escutando. E que a gente alcançar isso de novo era precioso.

Quem dera, nos acalorados debates de internet, a gente pudesse chegar ao mesmo desfecho daquela minha “briga” entre amigas: um abraço, um PF e a leveza de se abrir pro crescimento interior. Porque nós, que temos a ambição de mudar o mundo para melhor, só vamos alcançar isso se começarmos a ouvir as pessoas de quem discordamos — são elas que guardam o segredo para o nosso maior crescimento interior.

 


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