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Queridos leitores, volto a publicar o Dedo de Prosa, depois de cinco meses de silêncio, em parte pelo confinamento dentro de um “reality show”, em parte pela bagunça que virou minha vida depois disso, o que me impediu de retomar as leituras de maneira frequente, como é necessário para manter esse espaço interessante.

Desse tempo, relacionado à literatura, apenas um ensinamento: a leitura faz bem para a saúde mental, tanto é que, para estimular o conflito, os organizadores do referido programa só deixam os participantes levarem um único livro para dentro do confinamento… Se fossem mais, as pessoas enfrentariam as privações com muito mais desenvoltura — e haveria menos dramas, brigas e discussões. Leia, meu caro, para manter a saúde mental.

Pois bem, nesse período, muitos livros caíram nas minhas mãos, já que fui a várias Feiras do Livro (Belém, Resende e Brasília – ainda em curso), além do exitoso evento “Movida Literária”, que ocupou durante uma semana vários bares da capital com debate sobre literatura. Mas um elemento me chamou atenção – muitas boas obras de contos sendo lançadas.

O conto é um gênero generoso, sem trocadilhos, pois possibilita ao leitor ter uma experiência completa em poucas páginas. Para aqueles que, como muitos de nós, enfrentam a escassez de tempo e a correria de um cotidiano cheio de compromissos, pode ser a chave para manter o hábito de uma boa leitura.

Começo com o excelente “É um Bom Título”, lançado em abril pelo professor de jornalismo da UnB Paulo Paniago. Trata-se de sua primeira obra de ficção, mas já havia ganhado o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, na categoria contos. A bem da verdade, não é justo classificar o novo trabalho como um livro de contos tradicional.

Nasceu de uma brincadeira: ao deixar um livro no banco de trás de seu carro, foi questionado pela namorada se não tinha medo de que o roubassem. Respondeu “e por acaso existe ladrão que vai abrir um carro para roubar livro? Não existe ladrão intelectual.” “Isso dá um bom título”, respondeu ela. E nascia, assim, a literatura experimental apresentada em breves textos de duas páginas cada, que dão vida a títulos saborosos, colecionados ao longo de um ano e meio. Muitas referências literárias e várias sacadas, como “Autobiografia não autorizada”, na qual, dentre outros elementos, fala do bloqueio do autor. Hilário.

Felipe Menezes/Metrópoles

Professor Paulo Paniago com o livro “É um Bom Título”

Vale a pena, também, dar uma lida no “Histórias Atormentadas” da mineira Ana Vilela. O livro também foi lançado em abril, também é o primeiro da autora, que, por sua vez, também já foi premiada em concursos na categoria contos. Outra coincidência: Ana é cria da Universidade de Brasília (UnB), onde fez mestrado em Literatura. O tempo de cozimento, entretanto, foi diferente: neste foram dez anos de escrita, revisões e reescrita.

O livro foi dividido em quatro seções, com três contos cada, que conformam uma unidade semântica. Ela nos diz na apresentação, mas é fácil perceber que os contos são inspirados em histórias reais. A literatura, nesse caso, abranda o absurdo humano, demasiadamente humano, como o caso da chacina dos cachorros, incluindo o simpático Goiás, companheiro de Antônio.

Passo para o “Petaluma”, de Tiago Velasco, lançado em 2014. Trata-se do segundo livro de contos do autor, que também escreveu uma obra sobre a cultura pop. Vem com uma velocidade bem característica das grandes cidades, ainda que nesse caso, sua cidade grande seja bem fácil de reconhecer: o Rio de Janeiro."

“Petaluma”, que dá nome ao livro, é o nono e último conto e precisa ser lido com calma. Destoa dos outros contos, por vir entrecortado em cenas bem definidas, todas relacionadas ao cotidiano do restaurante Petaluma, mas que exigem que o leitor preencha os vazios entre as cenas. É como se o autor fosse um colega de trabalho, que não nos conta parte de suas aventuras privadas, mas que deixa escorrer pelo canto do lábio algum sangue para nos dar algumas pistas.

Por fim, um lançamento de junho, “A Maturidade Angustiada”, do talentoso André Giusti. Cheguei a ler os originais, já que a obra está pronta desde 2014, esperando uma editora. Trata-se do oitavo livro do multi-instrumentista Giusti, que escreve poesia, crônicas e contos (e sei que deve ter um romance pronto ou em gestação em alguma gaveta).

Recolhidos da experiência urbana de um homem maduro (e angustiado), seus contos apresentam o ritmo de quem já dominou a arte de contar histórias curtas e cortantes. Assim, mesmo cenas corriqueiras e cotidianas, como a esmola no semáforo, são apresentadas de maneira concisa, mas detalhada, na perfeita medida entre a pressa e o esmero. Recomendo.

Lançamento “Caligrafia das Nuvens”, poemas de Carla Andrade
Nesta terça-feira (27/6), às 19h, no Martinica Café (303 Norte)

“e se a decepção
for apenas
um engano um
equívoco
da atenção antes
de dormir”
Ricardo Domeneke, “a cadela sem Logos”, trecho

Rômulo Nevespaulo paniago
 


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