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Estava escrevendo uma coluna sobre a escritora e atriz brasiliense Cristiane Sobral. Sobre sua obra, composta de críticas, crônicas, contos e poesia; sobre como sua escrita é forte e serve de inspiração para muitas leitoras e também leitores. Sobre como estou curioso para ler o seu novo livro de poesia “Terra Negra”, que, aliás, está sendo lançado na Livraria do Chiquinho, na UnB, nesta quarta-feira (13/9).

Estava escrevendo que se “Terra Negra” tiver metade da lírica de “Não Vou Mais Lavar os Pratos”, de 2010, já vale a pena; se tiver só metade da força de “Só por Hoje Vou Deixar Meu Cabelo em Paz”, de 2014, será uma porrada; se tiver só metade da inventividade de “O Tapete Voador”, de 2016, será uma leitura necessária.

Estava escrevendo que ela já tem um espaço cultural com seu nome, na periferia do DF, dentro do Espaço Ubuntu, no Recanto das Emas. Que sua apresentação na FLIP deste ano, onde lançou “Terra Negra” pelo selo Malê, foi um marco porque, provavelmente, foi a que mais bem dialogava com a figura homenageada na edição, o escritor filho de escrava liberta, Lima Barreto.

Não vou, entretanto, fazer nada disso, não. Resolvi apenas escancarar um dos seus poemas mais fortes que dá nome ao livro de 2010. Para você, leitor, avaliar se não é exatamente tudo isso; para você avaliar se estou exagerando. É forte. É necessária. Que venha “Terra Negra”.

Não vou mais lavar os pratos

Nem vou limpar a poeira dos móveis
Sinto muito. Comecei a ler
Abri outro dia um livro e uma semana depois decidi
Não levo mais o lixo para a lixeira
Nem arrumo a bagunça das folhas que caem no quintal
Sinto muito. Depois de ler percebi a estética dos pratos
a estética dos traços, a ética
A estática
Olho minhas mãos quando mudam a página dos livros
mãos bem mais macias que antes
e sinto que posso começar a ser a todo instante
Sinto
Qualquer coisa
Não vou mais lavar
Nem levar.
Seus tapetes para lavar a seco
Tenho os olhos rasos d’água
Sinto muito
Agora que comecei a ler, quero entender
O porquê, por quê? E o porquê
Existem coisas
Eu li, e li, e li
Eu até sorri
E deixei o feijão queimar…
Olha que o feijão sempre demora a ficar pronto
Considere que os tempos agora são outros…
Ah,
Esqueci de dizer. Não vou mais
Resolvi ficar um tempo comigo
Resolvi ler sobre o que se passa conosco
Você nem me espere. Você nem me chame. Não vou
De tudo o que jamais li, de tudo o que jamais entendi
você foi o que passou
Passou do limite, passou da medida, passou do alfabeto
Desalfabetizou
Não vou mais lavar as coisas e encobrir a verdadeira sujeira
Nem limpar a poeira e espalhar o pó daqui para lá e de lá para cá
Desinfetarei as minhas mãos e não tocarei suas partes móveis
Não tocarei no álcool
Depois de tantos anos alfabetizada, aprendi a ler
Depois de tanto tempo juntos, aprendi a separar
Meu tênis do seu sapato
Minha gaveta das suas gravatas
Meu perfume do seu cheiro
Minha tela da sua moldura
Sendo assim, não lavo mais nada
e olho a sujeira no fundo do copo
Sempre chega o momento
De sacudir, de investir, de traduzir
Não lavo mais pratos
Li a assinatura da minha lei áurea escrita em negro maiúsculo
Em letras tamanho 18, espaço duplo
Aboli
Não lavo mais os pratos
Quero travessas de prata, cozinhas de luxo
E jóias de ouro
Legítimas
Está decretada a lei áurea.

Agenda de lançamentos:
– Quinta-feira (14/9), às 20h: Palestra 40 anos sem Clarice, releitura de “A Paixão Segundo G.H.” No Auditório Cyro dos Anjos, Associação Nacional dos Escritores (707/907 Sul)
– Sexta-feira (15/9), a partir das 19h: “Ainda há uma saída”, de Morvan Ulhoa. No Carpe Diem (104 Sul)
– Sábado (16/9), a partir das 19h: “Candango – Memórias do Festival de Brasília Vol. 1”, de Lino Meireles. No Cine Brasília (EQS 106/107 Sul)
– Segunda-feira (18/9), a partir das 19h: “Afetos, Relações e Encontros com Filmes Brasileiros Contemporâneos”, de Denilson Lopes. No Cine Brasília (106/107 Sul)

Cristiane SobralTerra Negra
 


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