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Brasília não tinha nenhum restaurante indiano. Em 2013, lá no Condomínio Solar da Serra, surgia o PiauÍndia, sonho de Evandro e Nicole, um casal apaixonado pelos costumes e pela comida da Índia. O restaurante, na casa deles, era bem longe. Lembro de minhas amigas com vontade de ir, mas pensando duas vezes por conta da distância.

O funcionamento durou pouco. Consegui ir apenas uma vez. Eles fecharam as portas com a promessa de reabrir. Dois anos depois, levaram o PiauÍndia ao coração de Brasília, a Vila Planalto, bairro pioneiro na cidade. A proposta era a mesma: a cozinha afetiva indiana.

E bota afetividade nisso. Evandro é mais contido. Nicole transborda sorrisos, frases de quase auto-ajuda, muita energia e namastê. Tem horas que, por mais que seja sincero, é um pouco excessivo.

A comida do novo PiauÍndia está melhor agora, no novo local, do que antes. Sabores mais regulares e consistentes. Dá de mil a zero no Ashram, segundo indiano que abriu na Asa Norte. E ora empata, ora supera o Bhojana, o indiano do Quituart.

Sobra leveza e falta sabor
Minha maior questão com o PiauÍndia é que o chef adaptou a comida indiana aos paladares brasileiros. A proposta do restaurante pode ser esta, tanto é que o nome já é uma fusão entre o estado querido e o país enaltecido.

Mas, quando imagino a comida indiana, penso naquela profusão espetacular de sabores como curries, massalas, especiarias e pimentas. E lá, o tom é sempre um grau abaixo do que gostaria que fosse. Sim, tem pimenta extra para usar, mas não é mesma sensação no paladar quando, na hora do preparo e cozimento, o tempero é adicionado e tem a chance de impregnar no alimento, proporcionando camadas de sabores.

As samosas, por exemplo. Aqueles pasteizinhos recheados com batata, ervilhas frescas e especiarias (quatro unidades – R$ 14), carro-chefe de qualquer indiano, são bons, crocantes e saborosos. Porém, seu recheio merecia mais tempero e sal. Prefiro as do Bhojana, mais condimentadas.

Os rolinhos de frango tandoori (R$ 16 – serve duas pessoas) também são quase uma obrigação entre as entradas. Mas, caso vá com grupo, talvez seja melhor pedir um mix das entradas que têm no cardápio. Vem com chutneys, samosas, rolinhos, legumes fritos em pasta de grão de bico, pão típico e uma espécie de picles de quiabo. Assim, você experimenta um pouco de cada.

Os pratos são bem servidos. Chegam à mesa acompanhados de cumbuquinhas de metal com lentilhas com especiarias, arroz basmati, salada de folhas, legumes e pão. Talvez o prato mais pedido da casa seja o Frango Massala, feito com cubos de frango, molho de massala de tomate pelado, pimentão vermelho e especiarias (R$ 44).

O sabor do frango, como já mencionei, poderia ser mais intenso na massala. É gostoso, ainda mais quando você coloca na boca uma garfada com os complementos. Eles harmonizam, mas há uma leveza no condimento.

Dentre os que experimentei, o mais indiano de todos foi o cordeiro dos deuses, feito com pernil de cordeiro em cubos, iogurte, leite de coco, maçã verde, tomate pelado e especiarias (R$ 55). Carne macia, que deve ter sido cozida lentamente, pois o gosto estava delicioso. Os sabores dos ingredientes dialogavam entre si sem que nenhum se sobrepusesse ao outro. Detesto quando o leite de coco, por exemplo, rouba a cena do prato, deixando todos os demais temperos de escanteio.

Outro preferido da minha lista é o Moule de camarão. São camarões rosa ao molho de leite de coco, açafrão e queijo de cabra (R$ 62). Saboroso, mas também suave e, por oras, cremoso demais por conta do queijo. Mais uma vez, insisto, você vai comer bem por lá, mas talvez queira mais Índia do que a cozinha entrega.

Nicole e Evandro, sem dúvida, fazem uma comida com afeto, engajada na atitude de usar produtos frescos e, em sua maioria, orgânicos. Mas poderiam se aproximar cada vez mais da autenticidade dos pratos indianos. Talvez, quando o garçom viesse à mesa, o cliente poderia optar em pedir o prato mais picante ou condimentado.

O PiauÍndia proporciona um ambiente aconchegante. Mesas e paredes em tons de amarelo nos faz lembrar do açafrão, ingrediente muito usado na gastronomia indiana. E como não poderia deixar de faltar, um toque de natureza, que fica por conta das plantas penduradas na varanda. Antes de sair, recomenda-se fazer um pedido ao Ganesha que fica na porta e se despedir com um sonoro “namastê”.

Cortês sim; omissa, não.

DEVO IR?
Sim. Vá zen e volte zen. Namastê!

PONTO ALTO:
O carinho que a comida é feita.

PONTO FRACO:
Os temperos poderiam ser mais intensos.

PiauÍndia Cozinha Afetiva Indiana
Acampamento Pacheco Fernandes, Rua 9, Casa 2, Vila Planalto, 3574-4234.

gastronomiapiauindia
 


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