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Brasília é uma cidade boa de copo. Não há estatísticas oficiais sobre o consumo de álcool na capital, mas os brasileiros bebem mais do que a média mundial. Cerveja, prioritariamente. Embora, cada vez mais, aumente o número dos que trocam a bebida espumosa pelos drinques, feitos com vodca, cachaça e gim. O mercado brasiliense acompanha o crescimento desse consumo nos últimos anos.

Isso se constata pelo aumento de casas oferecendo carta de drinques. Mas esse aumento numérico não necessariamente é acompanhado pela qualidade do que é servido. Brasília ainda não tem tradição em coquetelaria. Faltam cursos e profissionais treinados, os bartenders — que sabem que coquetel é coisa de “gente grande” e não simplesmente sair pingando bebida em um recipiente para depois sacudir e achar que está pronto.

Suco de caixinha?!
Nas cidades que são vanguarda, como Nova York, Londres, Tóquio, Berlim e, alguns degraus abaixo, São Paulo, a coquetelaria segue os ditames que orientam a gastronomia: escolha dos melhores insumos, valorização dos produtos locais e – o mais importante – utilização de ingredientes frescos.

Nos melhores bares londrinos, nova-iorquinos e paulistanos, o suco utilizado no Bellini, no Apple Martini e no Cosmopolitan, por exemplo, são naturais, feitos no dia. Além de o sabor ser outro – melhor! –, o drinque fica livre de substâncias químicas, corantes e de sódio. Mas em Brasília, infelizmente, prevalece o suco de caixinha.

Gelo não tem que virar água
Alguns bartenders, mais conectados com os tempos atuais, ainda vão além e preparam os próprios xaropes, a própria água tônica e o próprio gelo. Pode parecer frescura, mas um bom gelo é essencial. Quando feito com técnica correta, derrete muito mais devagar e não deixa o drinque aguado. De que adianta usar um bom prosecco no preparo de um Spritz se seu sabor vai ficar diluído em água gelada?

Como na gastronomia, na coquetelaria, quanto menos firula, melhor. Como andam dizendo por aí, menos é mais. Invencionice tem limite e prazo de validade. Se usar espumas, esferificações e nitrogênio líquido ficou cafona no prato, por que razão esses recursos estão tendo uma sobrevida no copo?

Modernidade demais, sabor a menos
Aqui em Brasília, os bares mais badalados (Tabuada e Cine Paradiso) abusam dessas “modernidades”, mas entregam pouco no paladar. Menos pirotecnia e mais criatividade na combinação de sabores, minha gente!

Gostaria de começar uma campanha nesse espaço: menos vodca e mais cachaça. Vamos valorizar o produto nacional! Além disso, a variedade e a qualidade das cachaças aumentaram tanto que é um pecado oferecer só Sagatiba. Vale o esforço de pesquisa para colocar nos cardápios drinques feitos com os diversos tipos de nosso destilado.

Que tal testar que cítricos vão bem com cachaça envelhecida em bálsamos, por exemplo? Que bitter combina mais com a cachaça que descansou em barril de carvalho? Garanto que o resultado final pode surpreender!

Gero também é bom nos drinques
Na minha singela opinião, os melhores drinques da capital estão no Gero. Eles têm uma carta diversa com foco nos clássicos, como dry martini e negroni, sem deixar de lado as criações da casa. Colados ali na dianteira, estão também dois restaurantes de origem latina: o Taypá, com sua diversidade de piscos sour, e o El Paso Texas/El Paso Latino, com piscos e margaritas saborosos. Nesses lugares, você frequenta e vai tomar o coquetel com mesmo sabor toda vez que for.

Quando o Balcony se instalou na Asa Sul, ele trouxe o hábito do balcão. Das pessoas sentarem ao redor ou próximos a quem prepara os drinques, enquanto se bate papo e se come algum petisco. E essa cultura está relacionada a uma boa música, como o jazz. Exemplo mais do que perfeito é o Frank Bar, do Hotel Maksoud, em São Paulo, local onde o barman Spencer Jr. comanda a melhor casa do ramo no país.

Aval de Fabio de La Petra
O Universal Diner está numa fase de investir em drinques. Em maio deste ano, a casa contratou a consultoria do Fabio de La Petra, bartender do excelente Sub Astor (SP). O problema, quando isso acontece, é que o cara vem, monta uma supercarta, faz treinamento e vai embora. Geralmente, nesses casos, os drinques saem razoáveis nas primeiras semanas, depois, desanda, perde a regularidade. Resta torcer para que, no Universal, o efeito La Petra se estenda por longo tempo.

Torço também para que se fortaleça na capital esse movimento, ainda tímido, em direção à cultura do drinque. Às vezes, as pessoas deixam de pedir coquetéis porque são caros — e ninguém fica só em um. Mas, se for bem feito, com uma entrega que seja condizente com o prazer de bebê-lo, aí sim, Brasília terá mais profissionais gabaritados para produzir boas doses de alegria. E não simplesmente ter o drinque pelo glamour ou pela invenção.

Cortês sim; omissa, não.

DEVO IR?
Experimente bons drinques com moderação. E depois, chame um Uber.

PONTO ALTO:
Gero, Taypá, El Paso Texas e El Paso Latino (são de lá os drinques da foto no alto desta coluna).

PONTO FRACO:
Cine Paradiso, Tabuada.

Gero (Shopping Iguatemi, Lago Norte, 3577-5520)
Taypá (QI 17 Bloco G, Lago Sul, 3248-0403)
El Paso Texas e El Paso Latino (404 Sul, Bloco C, Loja 145/146, 3323-4618)
Balcony (412 Sul, Bloco C, Loja 17, 3245-5535)
Universal Diner (210 Sul, Bloco C, Loja 18, 3443-2089)

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