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Se você é daqueles que pensa que a cerveja sempre foi amarguinha, está muito enganado. Na verdade, relativizando a existência da nossa bebida preferida (e lá se vão mais de 6 mil anos), alguma das suas características mais marcantes, como a limpidez e o clássico trava-língua, são coisas que foram inventadas, tipo, ontem.

Até o século 16, os povos usavam ervas, algas marinhas, e tudo mais o que você possa imaginar para balancear o inevitável dulçor do malte de cevada. Hoje em dia, porém, não tem conversa: os lúpulos reinam absolutos e, na nossa humilde opinião, são os grandes responsáveis por conferir personalidade à maioria das receitas.

Mas o leitor deve estar pensando: “O que diabos é o lúpulo”? O lúpulo é uma planta trepadeira da espécie Humulus lupulus, que faz parte da família Cannabaceae. Se você leu com atenção, percebeu que a palavra lembra uma velha conhecida, a Cannabis sativa, planta rebatizada com centenas de nomes, incluindo “maconha”. De fato, as duas verdinhas fazem parte da mesma grande família. E, sim, o lúpulo também tem propriedade (muito leve) relaxante.

André Vasquez/MetrópolesConservante natural
Uma das razões que talvez explique a consolidação do lúpulo na receita básica da cerveja é o fato de ele ser um conservante natural. É por isso que a planta começou a ser adicionada em grandes quantidades a cervejas de exportação, que viajariam para terras distantes. Não por acaso, as India Pale Ales (que viajavam da Inglaterra até a Índia) e vários dos estilos Export são muito amargas.

Ao mesmo tempo que os lúpulos esbanjam popularidade nos quatro cantos do mundo, essa trepadeira tem seus caprichos e só floresce quando muitas condições forem favoráveis simultaneamente. A plantação deve estar entre os paralelos geográficos 30˚ e 50˚, sobre um solo rico em nutrientes específicos, com água frequente em pequenas quantidades e recebendo muitas horas de sol.

Por essas razões é tão difícil termos lúpulo no Brasil, ainda que alguns testes bem-sucedidos já tenham sido feitos em Santa Catarina e no pé da Serra da Mantiqueira, em São Paulo.

Com tanta dificuldade, os lugares onde se cultivam essas joias acabam se tornando determinantes para o tipo de lúpulo — e cada variedade da plantinha revela propriedades únicas. Não é exagero dizer que temos pelo menos quatro grandes áreas distintas de cultivo de lúpulo.

André Vasquez/Metrópoles

 

Alemanha e República Tcheca
Esta região pode ser considerada o berço do lúpulo e, até hoje, é de lá que saem 25% da produção mundial. Os lúpulos desses países dominam as receitas da escola alemã, tcheca, e aparecem com muita frequência em cervejas de outros cantinhos da Europa. São variedades com pouco alfa-ácidos, ou seja, com amargor moderado. Os aromas e sabores característicos trazem notas florais, terrosas e picantes. Os exemplos mais famosos são os Hallertauer, Tettnanger, Saphir, Spall, Magnum, Hersbrucker e Saaz.

Inglaterra
Com o cultivo introduzido somente no século 16, e apesar de serem plantados em pouca quantidade devido à pequena área e condições limítrofes, os lúpulos ingleses são cheios de personalidade. Geralmente trazem aromas de grama, de flor, de algo cítrico e de chá, e não adicionam uma carga agressiva de amargor. Sabe elegância? É disso que estamos falando. Seus representantes de peso são o Fuggle, Challenger, Goldings, First Gold, Target e Northern Brewer.

Austrália e Nova Zelândia
Alguns dos lúpulos mais frutados e incríveis do mundo crescem na longínqua Oceania. São plantinhas capazes de conferir aromas da uva Sauvignon Blanc, de maracujá, lichia, kiwi e outras tantas frutas intrigantes. São resinosos e se incorporam fortemente à cerveja. Absolutamente extravagantes e maravilhosos. Espécies incríveis: Motueka, Galaxy e Nelson Sauvin.

Estados Unidos
Na terra das cervejas mais extremas, florescem algumas das variações mais potentes em amargor e aroma. Pela extensa área plantada, os lúpulos americanos podem trazer características diferentes: florais, frutadas, de pinho e resinosas. É um mundo de possibilidades que só aumenta ano a ano, já que os produtores sempre criam novas variedades a partir de tipos clássicos. Alguns dos exemplos importantes são o Cascade, Centennial, Amarillo, Columbus, Chinook, Willamete e Citra.

Na verdade, a lista é longa demais. O mais incrível é que, todo ano, novas variedades são criadas a partir do cruzamento de espécies pré-existentes. Ou seja, há sempre uma novidade!

*André Vasquez e Marina Cavechia são sócios e curadores do clube de cerveja por assinatura Ohmybeer.com.br.

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