Metade de vítimas de estupro tem até 14 anos e foi violada por parente
Os dados de estupro no Brasil são claros: mais da metade das vítimas são vulneráveis. Crianças são violentadas por conhecidos ou familiares

Quando a maioria das pessoas pensa em estupro, talvez a cena a seguir é a mais comum que vem à cabeça: uma garota de roupas curtas e apertadas vagando sozinha pelas ruas escuras da cidade. Ao cruzar um beco, é surpreendida por um homem encapuzado. Ele, um completo desconhecido, decide violar essa bela moça em um lugar público, acobertado e escondido no meio da noite.
Essa descrição não poderia estar mais distante da realidade. A 12ª edição do Dossiê Mulher

O informe da Anistia Internacional de 2016/17 Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde
No Brasil, a lei entende como estupro “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. O artigo 217-A do código penal é específico para vulneráveis, que são pessoas menores de 14 anos de idade e quem “por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência”.Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA doutora em Direitos Humanos e professora de Direito Penal Maíra Zapater explica a situação com um exemplo. “Se um menino ou menina de 11 anos mantém relação sexual com alguém maior de idade e essa pessoa alegar que a criança ‘quis transar’, isso é irrelevante para a lei”. Maíra informa que o crime, em caso de vulneráveis, pode ser denunciado por uma terceira pessoa que saiba do ocorrido.
Além disso, o código penal prevê a notificação compulsória. Isso quer dizer que quando a mulher for atendida em serviços de saúde, sejam eles públicos ou privados, e for notada violência, os atendentes dela devem denunciar.
Subnotificação
“É importante destacar que crianças e adolescentes são mais vulneráveis, já que muitas vezes a relação de confiança e dependência com os agressores dificulta o entendimento do ato sexual não desejado como uma violência”, afirma o antropólogo social e doutorando em ciências sociais Julian Simões.
O especialista acredita que, apesar da vulnerabilidade, talvez as crianças não sejam as que mais sofrem estupros. Julian explica que a subnotificação de violência sexual é um fenômeno mundial e que alguns fatores, como não acreditar no sistema de justiça para lidar com a agressão, vergonha, culpa e laços com o agressor, distanciam as vítimas da denúncia.
O antropólogo aponta que alguns sintomas comuns de crianças e adolescentes que sofreram violência sexual são alterações no sono, mudanças bruscas de humor, estresse ao enfrentarem situações cotidianas que anteriormente não eram problemáticas e aparecimento de “medos”, como dormir no escuro e ficar sozinho.
Para Julian, a única forma de precaução eficaz é a conversa. “Ao falarmos do direito ao próprio corpo e dos demais temas que valorizem o respeito, criamos estratégias de proteção que ajudariam a diminuir a ocorrência dos casos”, afirma.



