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O fiscal agropecuário federal Daniel Gouvêa Teixeira, que denunciou irregularidades na Superintendência Federal de Agricultura do Paraná, órgão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, afirmou que falta “transparência” e “fiscalização” na cadeia de produção de carne brasileira. O agente público delator da Operação Carne Fraca concedeu entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo, exibido na noite deste domingo (19/3).

“Dá para continuar consumindo carne. A nossa cadeia produtiva é uma das mais organizadas do planeta. O que falta é fiscalização e transparência. O Brasil não pode perder mercado por causa de situações como essa”, defende. Teixeira afirmou ter inicialmente descoberto irregularidades no frigorífico Peccin, no Paraná. “O aproveitamento de carnes estragadas, fora de validade, em estado de putrefação”, relatou.

Ele ainda lembrou ter encontrado carne mecanicamente separada acima do permitido para consumo: “A carne mecanicamente separada é um subproduto do abate de aves. Sobra um pouco de carne que chamamos de carcaça, que é o peitoral do frango. Eles usavam em torno de 94% da composição do produto. A regra é de, no máximo, 60%, ou 40%. Assim, eles barateavam demais o produto, o que é competição desleal no mercado, além de ser fraude.”

Após comunicar as irregularidades ao Ministério da Agricultura, afirmou ter sido afastado da fiscalização do frigorífico Peccin. “Eu recebi a notificação de que foi cancelada a minha atribuição de fiscalização daquele frigorífico”, disse.

Após deixar de vistoriar o Peccin, ele fiscalizou o frigorífico Souza Ramos, segundo a reportagem da TV Globo, onde encontrou novas irregularidades no fornecimento de merenda para uma escola pública.

A Operação Carne Fraca busca combater corrupção de agentes públicos federais e crimes contra Saúde Pública. Executivos do frigorífico JBS, da BRF Brasil e outros foram alvos da operação – maior operação já deflagrada pela PF, com mais de 1 mil homens envolvidos. A Justiça mandou bloquear até R$ 1 bilhão dos investigados.

 

Carnes estragadas
Segundo ele, o frigorífico de Peccin aproveitava “carnes estragadas, carnes fora de validade, fora de refrigeração, em putrefação”, além de carcaças de frango em quantidade maior do que o permitido pelo Ministério da Agricultura. “A carne mecanicamente separada é um subproduto do abate de aves. Sobra um pouco de carne, o que chamam de carcaça, que é o peitoral do franco, e eles usavam em torno de 94% desse produto, quando a regra é no máximo 60% ou 40%, dependendo do produto”.

O mesmo frigorífico usava ácido sórbico para melhorar a aparência das carnes, conta Teixeira, que é médico veterinário. “Esse descontaminante é misturado na massa dos produtos para poder diminuir a contaminação bacteriana e mascarar os odores e as características de carne podre”, afirma. O ácido sórbico não é um produto cancerígeno ou capaz de provocar danos à saúde, mas pode mascarar uma carne imprópria para consumo. Ele pode ser usado em carnes maturadas, mas não em carnes frescas.

Depois de denunciar essas irregularidades à Superintendência Regional do Ministério da Agricultura no Paraná, o auditor acabou afastado da fiscalização dessa empresa, segundo contou à TV Globo. “Recebi a notificação de que havia sido cancelada minha atribuição de fiscalização daquele frigorífico”. Ele então levou o caso à Polícia Federal, que iniciou sua investigação.

Em 2014, o frigorífico Souza Ramos forneceu 260 toneladas de salsicha de peru para escolas do Paraná e também foi alvo de uma fiscalização feita por Teixeira. “Com a análise do DNA, constatamos que não tinha sido usado nada de peru”.

O que havia, segundo ele, era carne de carcaça de frango, com problemas. “Não tinha o teor mínimo de proteínas que deveria ter, o teor de carboidrato estava acima do permitido pelo Ministério da Agricultura e o teor de sódio era até 80 vezes maior do que o regulamento da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)”, constatou.

Em relação às denúncias, os frigoríficos negam irregularidades e afirmam funcionar dentro das normas exigidas.

 

 

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